Tuesday, 9 October 2018

Eu quero falar hoje com vocês sobre saúde mental. Frases clichês. I don´t care. Quando você tiver esta condição ou alguém que ame passando por ela, a gente conversa.

É assim, esse troço é tabu né? Um estigma da porra. Mas e porque falar que tem diabete e pressão alta também não é? Ou qualquer outra doença crônica?

Darwin já descobriu a evolução, sei lá quem descobriu os genes (ele mesmo talvez kkk). Do mesmo jeito que alguém tem uma propensão genética a ter câncer, também temos indivíduos com propensão a doença mental. Tem gente com gene pra câncer que morre de acidente de carro. E gente com depressão que morre de acidente de carro também.

A questão é falar disso, admitir isso, tratar isso. Não como vítima não. Mas como portador de uma condição que é sim debilitadora, cruel, que arruína vidas e famílias. Como outras dezenas de doenças crônicas

Outro dia fui num psiquiatra que me disse que nunca quis morrer. Sai de lá pra nunca mais voltar. Não estou falando de se matar. Mas vai dizer que você nunca teve um dia em que desejou não existir, não estar ali? Vai me dizer que você é o Buddha iluminado e ninguém nos avisou????? me poupe, com U maiúsculo. Se sua vida é tão sensacional assim, e nenhuma dificuldade te atinge, manda já pro papa seu pedido de beatificação. Ou se interne, porque você sim é louco.

A doença mental é comum, é do espirito e da essência humanas. Não é coitadização. Alguém em sã consciência (tirando os ganhos secundários, outro papo) escolhe vir ao mundo com câncer? Pra sentir dor física? Óbvio que não. Alguém com um sofrimento psíquico tão intenso, que o incapacita de levantar da cama para urinar, escolheu passar por uma dor dessa? Infligir essa dor na família?

Cansa, cara, eu sei que cansa, melhor que ninguém (pra quem me conhece). Eu não me aguento muitos dias, não aguento a minha mãe também. Mas eu acredito no dharma, eu escolhi este dharma, meu, da minha mãe, da carga genética da minha família. Não acredito que serei assim quando desencarnar (não exatamente assim pelo menos), pois não terei o substrato cerebral que me foi dado, que eu acredito que escolhi aliás (não estamos debatendo fé, outro papo). Substrato este que cientistas estão afirmando agora que traumas na infância podem ter a capacidade de alterar células e sinapses, gerando reações fisiológicas iguais às do momento do trauma. E você vai me dizer que isso não é genético, é só espiritual? E vai me dizer que não é espiritual, é só genético?

Eu já perdi dois entes queridos pro câncer, e perco minha mãe todos os dias. Há 12 anos. Eu digo pra você com toda a minha convicção: não há nenhuma doença pior que a doença mental. Com a cabeça boa, as pessoas tiram o câncer de letra. Com a cabeça ruim, cada dia de dor psiquíca é tão intenso quanto a dor física do câncer.

E sim gente, tem milhares de crianças passando fome na Africa e refugiados morrendo afogados no Mediterrâneo. But we each got our lot in life. Relativizar o sofrimento não adianta, te faz se sentir uma merda maior ainda, por que "como é que não consigo ser feliz com tudo que tenho, olha essa criança, sem pai, sem mãe, sem comida?" VOCÊ TEM UMA DOENÇA, E NÃO É CULPA SUA. Repito: você é cardíaco? Você a culpa é sua? Não. Mas a doença fará você crescer e evoluir, aceitar limitações, superar medos. Não há NENHUMA vergonha em ser cardíaco, e não há NENHUMA vergonha em ter uma condição mental. NENHUMA. Não há nenhuma vergonha em sentir menos dor vendo as crianças refugiadas.

Com este desenvolvimento, de qualquer doença crônica, você pode APRENDER que tudo é circunstancial e transitórioSABER que a angústia que a tristeza gerou PASSA. SABER que a vida providencia o melhor para nós, ainda que, no momento presente, nos doa como se estivéssemos em carne viva. Tenho descoberto que o segredo não está em ter uma vida sem problemas; todo mundo os tem, embora na nossa cultura finjam super bem não ter. O segredo está em tentar manter-se em algum tipo de centro de equilíbrio dentro de si, quando os problemas surgem. E se não rolar, AJUDA. GRITE AJUDA.

Entretanto, procure AJUDA, a que te fizer bem, não importa qual. Tá te fazendo te sentir bem, de fato, se jogue. Auto-ajuda, astrologia, dançar, andar de bicicleta, ir salvar crianças refugiadas, tomar medicação, fazer terapia verbal, corporal, espiritual, plantar árvove, Yoga, meditação, pintar mandalas, ficar enrolado no cobertor vendo netflix, se jogar na pista de dança com amigos. Manda passar pelo que você tá passando quando começarem a julgar "mas você acha mesmo que esta aguinha do espiritismo tá ajudando?" "você não ta se envenenando com estes remédios?" "você acha que essas agulhas no seu corpo fazem alguma coisa?". Manda praquele lugar. Faz o que te faz se sentir bem, nem que seja meio minuto.

Mas encare o problema. Não enrole. Não se engane. Não existe solução mágica e rápida, se tivesse venderia meu rim pra pagar por esta pílula mágica pra mim e minha mãe, sério.

E seja verdadeiro, principalmente consigo mesmo. Se enganar só te fará evitar o inevitável. Se olhar. Pra dentro. DÓI PRA CARALHO MANO. Mas seja compassivo consigo mesmo no processo. Quando conseguir um grande feito, comemore, celebre, é uma vitória, sua vitória. Quando não der, não deu. Fique na cama. Chore, grite pro travesseiro. MAS PROCURE AJUDA. Não sofra sozinho, não tem por que, não tem vergonha. Somos todos humanos, todos passamos pela fase anal, e você sabe o que quero dizer com isso. 




Sunday, 22 July 2018

O que vou escrever é pra mim e partilho aqui. Parecerá um manifesto feminista. Não é. É uma tentativa de celebrar a singularidade de experimentar esta existência enquanto mulher, e o quanto nós nos perdemos de nós mesmas no processo de viver no mundo como ele está neste momento.

Por séculos, quiçá milênios, a força do feminino foi celebrada e reverenciada. Somos nós, o feminino, que trazemos todos os seres vivos a esta dimensão. Este ato por si só já nos atribui um poder indescritível. Mas como nos apropriamos deste poder? Como o usamos? Estamos usando o poder do feminino, que vai além da capacidade de dar à luz, de maneira sábia, gentil, bondosa, receptiva, criativa, de forma feminina?

Ou estamos somente reproduzindo os modelos distorcidos da nossa presença no mundo? Sem reconhecimento da radiância, da dignidade, da graça, da sutileza com que este poder deve ser empregado? Com frieza, cálculo, distância, manipulação, neurose? 

Temos todos a Deusa dentro de nós, este arquétipo que representa a Grande Mãe, que nutre, cuida, protege, orienta. E temos todos uma criança ferida que algumas vezes já está mais conectada à Deusa, mas que outras vezes, grita, angustiada, pelo cuidado da Deusa, pela nutrição e orientação da Grande Mãe.

E tentamos nós, mulheres, desesperadas, obter exteriormente esta atenção e reconhecimento desta criança, pois não fomos ensinadas sobre os mistérios do nosso poder de nos curar, a si mesma e entre nós mesmas. Nos debatemos histéricas, sim, histéricas, por migalhas insatisfatórias, quando o poder da criação de uma nova condição nos está totalmente acessível. 

Podemos nos fertilizar, se nos conectarmos com nossa consciência superior, exercer nossa criatividade e manifesta-la no mundo, livremente. Talvez tenhamos que abrir mão de situações e pessoas que não entenderão este novo ser, renascido depois de ter passado pelas profundezas do submundo. Pois a mulher que renasce assim tem uma presença altiva que pode assustar, ou também pode encantar. Só precisamos nos aproximar daquilo que nos faz bem, e dizer adeus àquilo que não nos apoia neste processo.

Somos todas ligadas, a sororidade entre nós vem dos ciclos lunares, desta fonte de luz delicada mas fascinante. Nestes ciclos, temos a chance de renovar a chama sagrada que purifica e transmuta nossas dores mais profundas.

E talvez uma das chaves para alcançar e utilizar o manancial deste nosso poder feminino esteja em reconhecer o poder do masculino que nós também temos, ao invés de projeta-lo no mundo exterior. Este masculino que sabe, que se torna um guia honrado, um espírito protetor, e que, unindo-se à dignidade e à graça do poder feminino, nos liberta de amarras ancestrais, permitindo que uma mulher renasça, plenamente consciente de seu poder de cura, de amor, de cuidado, de coragem e de força.

Fácil falar, difícil fazer...