Sunday, 22 July 2018

O que vou escrever é pra mim e partilho aqui. Parecerá um manifesto feminista. Não é. É uma tentativa de celebrar a singularidade de experimentar esta existência enquanto mulher, e o quanto nós nos perdemos de nós mesmas no processo de viver no mundo como ele está neste momento.

Por séculos, quiçá milênios, a força do feminino foi celebrada e reverenciada. Somos nós, o feminino, que trazemos todos os seres vivos a esta dimensão. Este ato por si só já nos atribui um poder indescritível. Mas como nos apropriamos deste poder? Como o usamos? Estamos usando o poder do feminino, que vai além da capacidade de dar à luz, de maneira sábia, gentil, bondosa, receptiva, criativa, de forma feminina?

Ou estamos somente reproduzindo os modelos distorcidos da nossa presença no mundo? Sem reconhecimento da radiância, da dignidade, da graça, da sutileza com que este poder deve ser empregado? Com frieza, cálculo, distância, manipulação, neurose? 

Temos todos a Deusa dentro de nós, este arquétipo que representa a Grande Mãe, que nutre, cuida, protege, orienta. E temos todos uma criança ferida que algumas vezes já está mais conectada à Deusa, mas que outras vezes, grita, angustiada, pelo cuidado da Deusa, pela nutrição e orientação da Grande Mãe.

E tentamos nós, mulheres, desesperadas, obter exteriormente esta atenção e reconhecimento desta criança, pois não fomos ensinadas sobre os mistérios do nosso poder de nos curar, a si mesma e entre nós mesmas. Nos debatemos histéricas, sim, histéricas, por migalhas insatisfatórias, quando o poder da criação de uma nova condição nos está totalmente acessível. 

Podemos nos fertilizar, se nos conectarmos com nossa consciência superior, exercer nossa criatividade e manifesta-la no mundo, livremente. Talvez tenhamos que abrir mão de situações e pessoas que não entenderão este novo ser, renascido depois de ter passado pelas profundezas do submundo. Pois a mulher que renasce assim tem uma presença altiva que pode assustar, ou também pode encantar. Só precisamos nos aproximar daquilo que nos faz bem, e dizer adeus àquilo que não nos apoia neste processo.

Somos todas ligadas, a sororidade entre nós vem dos ciclos lunares, desta fonte de luz delicada mas fascinante. Nestes ciclos, temos a chance de renovar a chama sagrada que purifica e transmuta nossas dores mais profundas.

E talvez uma das chaves para alcançar e utilizar o manancial deste nosso poder feminino esteja em reconhecer o poder do masculino que nós também temos, ao invés de projeta-lo no mundo exterior. Este masculino que sabe, que se torna um guia honrado, um espírito protetor, e que, unindo-se à dignidade e à graça do poder feminino, nos liberta de amarras ancestrais, permitindo que uma mulher renasça, plenamente consciente de seu poder de cura, de amor, de cuidado, de coragem e de força.

Fácil falar, difícil fazer...